Mercados: Vistos gold salvam bolsa nacional
O PSI subiu 29,6%. Os fundos de ações de empresas nacionais 30,1% e a bolsa nacional está em máximos históricos, um empurrão dado pelos fundos de investimento via vistos gold. Em 2025, foram injetados 732 milhões de euros no mercado de capitais.
Durante uma década, os vistos gold foram sinónimo de milionários a comprar casa em Portugal. O imobiliário foi a primeira porta de entrada para cidadãos estrangeiros obterem residência através do investimento, mas, apesar de ter atraído capital, este modelo acabou acusado de inflacionar o preço da habitação e de distorcer o mercado imobiliário. Em 2025, o Estado fechou essa porta e abriu outra, mais silenciosa, mas financeiramente interessante: a do mercado de capitais.
Longe dos holofotes do imobiliário, o “dinheiro” dos vistos gold encontrou nos fundos de investimento mobiliário e de capital de risco um novo destino. A exigência legal de aplicar pelo menos 60% do capital em empresas portuguesas transformou estes veículos num canal de financiamento da economia nacional e, talvez, num inesperado empurrão da bolsa. O resultado, segundo fonte financeira, são 732 milhões de euros captados em 2025 para este tipo de ativos financeiros.
Junte-se ainda o índice português (PSI) em máximos históricos. Algo que só encontra paralelo a 8 de janeiro de 2010. Para o analista da XTB, João Cruz, “este é um sinal de força” do mercado, mas também resulta de uma “composição mais concentrada, em que alguns nomes com maior peso influenciam o índice de forma positiva com mais facilidade”. Rui Ribeiro, analista financeiro da ProtesteInveste, salienta o facto de a Bolsa Nacional ter subido 29,6% em 2025. “Uma das melhores performances a nível mundial. No dia 4 de fevereiro de 2026, já acumula uma subida de 6,8%”, diz.
Mudança de estratégia
A realidade é que os vistos gold deixaram de pesar sobre as cidades e passaram a render e a investir nas empresas nacionais. “Numa perspetiva operacional, uma parte significativa desses fundos acabou por direcionar a alocação para ações cotadas em Portugal, em particular para empresas de maior capitalização bolsista, com níveis adequados de liquidez, estruturas acionistas estáveis e políticas de dividendos consistentes. Num mercado relativamente pequeno e com “free float” limitado, este tipo de procura, estável e pouco sensível a flutuações de curto prazo, tem um efeito assimétrico: não gera movimentos abruptos, mas contribui para sustentar cotações e reforçar tendências já em curso”, explica João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa.
O analista diz ainda que é neste enquadramento que se pode afirmar com convicção de que os fundos associados ao regime de Vistos Gold terão contribuído para exercer alguma pressão compradora, sobretudo em períodos em que a oferta vendedora era escassa. “O impacto foi tanto mais relevante quanto mais concentrado esteve em determinados títulos e fases de mercado, funcionando como um fator de apoio adicional à valorização, ainda que sem capacidade para, isoladamente, redefinir níveis de mercado”.
Segundo Jorge Duarte, analista da ProtesteInveste “os fundos de ações nacionais estavam moribundos. Era uma categoria de ativos que encolheu nos últimos anos. Quer em termos de número, quer em rentabilidade. Em 2025 as valorizações subiram 30,1%, acompanhando o movimento do Sul da Europa”.
Vanessa Câmara, advogada da Abreu Advogados e especialista em imigração, diz que a maioria dos estrangeiros que investe em Portugal utiliza a via dos fundos de investimento e capital de risco, sendo, regra geral, o montante de 500 mil euros o valor mais utilizado. Para a advogada este é um mecanismo interessante para quem investe e uma forma de contribuir para a economia nacional e para as empresas portuguesas.
Rui Ribeiro explica ainda que a subida da bolsa tem outros fatores associados. “Por um lado, a economia nacional cresceu acima da média da UE, por outro, o nível de endividamento tem melhorado. Agora é 90% do PIB”. Na sua opinião, todos estes fatores ajudam a que os investidores olhem para a nossa bolsa com interesse. Depois, “como somos um mercado pequeno, uma maior procura de ações tem de imediato um impacto no aumento das cotações.”
Várias empresas cotadas na bolsa portuguesa estão a beneficiar deste novo fôlego gerado no PSI. Se a análise se cingir aos últimos três anos (dados retirados a 4 de fevereiro) verifica-se que as maiores valorizações foram do Banco Comercial Português (BCP) e da Mota-Engil com as ações a subir 361% e 162%, respetivamente. Bem perto de duplicar o seu valor esteve a Sonae (96%). Os CTT (89%), a Semapa (85%), a Galp Energia (41%), a Ibersol (73%) e a REN (39%) também subiram. Contudo há cotadas que acumularam perdas nos últimos três anos, caso da Corticeira Amorim (-26%), EDP Renováveis (-32%), e REN (-5%).
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