A guerra continua, mas os mercados atingem novos máximos: em que está o capital global a apostar?
Os mercados bolsistas globais continuam a atingir máximos históricos apesar do aumento das tensões geopolíticas no Médio Oriente, uma vez que investidores mais experientes atribuem maior peso à solidez dos lucros e aos motores de crescimento de longo prazo do que aos riscos imediatos.

Wall Street prolongou recentemente a sua tendência de subida, com o S&P 500 a avançar cerca de 1% para um novo máximo histórico e o Nasdaq a subir aproximadamente 1,6%, também em níveis recorde. O Dow Jones Industrial Average ganhou mais de 300 pontos, refletindo uma confiança generalizada entre setores.
Este dinamismo não se limita aos Estados Unidos. O índice europeu STOXX 600 também atingiu recentemente o nível mais elevado dos últimos meses. Entretanto, o Nikkei 225 do Japão mantém-se próximo de máximos de várias décadas, enquanto os principais índices da Índia continuam numa trajetória de crescimento estável.
Estes ganhos ocorrem num momento em que os Estados Unidos e o Irão permanecem em disputa pelo controlo do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais críticas para o abastecimento global de petróleo.
Embora o prolongamento do cessar-fogo tenha reduzido o risco imediato de escalada, a situação continua a gerar incerteza nos mercados energéticos, com potenciais impactos na inflação e no crescimento global.
Jake McLaughlin, diretor executivo da deVere Portugal, parte de uma das maiores organizações independentes de consultoria financeira do mundo, com cerca de 14 mil milhões de dólares sob gestão, afirma que o aparente desfasamento entre os mercados e a geopolítica reflete uma mudança na forma como os investidores avaliam o risco.
“Os mercados não estão a ignorar o que está a acontecer no Médio Oriente, mas estão a recalibrar a probabilidade de cenários extremos”, explica.
“A ameaça ao fluxo energético através do Estreito de Ormuz continua séria, mas os investidores estão cada vez mais a considerar um cenário de disrupção limitada e não prolongada.”
Acrescenta ainda que os mercados tendem a antecipar os acontecimentos, em vez de reagir a eles em tempo real.
“As ações são prospetivas. Tendem a recuperar antes de as condições económicas melhorarem e frequentemente caem antes de os dados se deteriorarem. Este padrão tem-se repetido ao longo das últimas duas décadas, e estamos a observá-lo novamente agora.”
Os resultados empresariais têm desempenhado um papel central no suporte da atual valorização dos mercados. Várias grandes empresas apresentaram resultados acima do esperado, destacando-se os mais recentes resultados trimestrais da Tesla.
A fabricante de veículos elétricos reportou lucros superiores às previsões, ao mesmo tempo que continua a reforçar o investimento em inteligência artificial, materiais para baterias e sistemas autónomos, incluindo o desenvolvimento de robotáxis.
“A força dos resultados, particularmente nos setores ligados à inteligência artificial e à computação avançada, é um dos principais motores do desempenho dos mercados”, afirma McLaughlin.
“Os investidores estão focados em identificar onde estará o crescimento futuro, e neste momento ele está fortemente concentrado na inteligência artificial e na tecnologia.”

Esta concentração é cada vez mais evidente na dinâmica dos mercados globais. O mercado bolsista de Taiwan ultrapassou recentemente o do Reino Unido em capitalização total, atingindo cerca de 4,1 biliões de dólares.
Este crescimento tem sido impulsionado sobretudo pela procura por semicondutores, componentes essenciais para o desenvolvimento e implementação de sistemas de inteligência artificial. A TSMC continua a ser um dos principais protagonistas deste ecossistema, fornecendo chips avançados a muitas das principais empresas tecnológicas do mundo.
“O capital está a fluir para as áreas do mercado que estão a construir a infraestrutura da inteligência artificial.
Isto inclui semicondutores, computação em nuvem e plataformas digitais. Estes setores continuam a atrair investimento porque são fundamentais para os ganhos de produtividade e o crescimento das receitas no futuro.”
A divergência entre mercados também se está a acentuar.
Enquanto economias e índices com forte exposição à inteligência artificial e tecnologia continuam a atrair fluxos de capital, mercados mais tradicionais têm tido dificuldade em acompanhar este ritmo. O mercado britânico, por exemplo, continua a negociar em níveis semelhantes aos de há mais de uma década, refletindo a sua menor exposição a setores de elevado crescimento.
Esta mudança está a alterar a forma como os investidores interpretam o desempenho dos mercados. Um grupo relativamente pequeno de empresas ligadas à inteligência artificial e à tecnologia está agora a gerar uma parte desproporcionada dos retornos, o que significa que as condições económicas gerais nem sempre acompanham a evolução dos índices.
“Os mercados acionistas não são um reflexo direto da economia real”, afirma McLaughlin.
“Representam empresas cotadas, muitas das quais operam globalmente e estão expostas a motores de crescimento muito diferentes das economias domésticas. É por isso que é possível ter mercados fortes mesmo quando partes da economia global enfrentam dificuldades.”

Apesar da resiliência dos mercados acionistas, os riscos associados ao Médio Oriente continuam significativos.
Qualquer interrupção prolongada do fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz poderá fazer subir os preços da energia e pressionar a inflação, com implicações para a política monetária e a estabilidade económica global. As cadeias de abastecimento também poderão sofrer novos constrangimentos caso as rotas marítimas sejam limitadas.
“O risco geopolítico não desapareceu e não deve ser ignorado”, alerta o diretor executivo da deVere Portugal.
“Os mercados energéticos continuam sensíveis e qualquer escalada poderá ter impacto alargado nas economias e nos mercados financeiros.”
Ainda assim, considera que focar-se exclusivamente nestes riscos pode distorcer a perceção do panorama global de investimento.
“A história mais importante é a força do ciclo global de lucros e a dimensão do investimento que está a fluir para a inteligência artificial e tecnologia”, afirma. “Estas são forças poderosas que estão a transformar a economia global e a impulsionar o desempenho dos mercados.”
O atual contexto evidencia a importância de os investidores compreenderem o verdadeiro sinal que os mercados estão a transmitir.
“Os mercados estão, na prática, a indicar que a economia global continua resiliente, que o crescimento dos lucros é sólido e que as áreas mais dinâmicas de expansão estão na inteligência artificial e na tecnologia”, conclui McLaughlin.
Link original: https://www.theportugalnews.com/news/2026-05-01/markets-hit-record-highs-as-savvy-investors-look-beyond-war/1013482
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